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um blog de Nuno Gouveia

26 fevereiro 2006

O esquecimento 

O Homem dobrou a esquina
e lembrou-se do esquecimento no vazio da sua mala.
Incapaz de entender do que se tratava, retomou a sua marcha normal.

Ao dobrar a segunda esquina, o Homem achou que aquilo
que esquecia hoje era o mesmo que esquecera em outros dias.
Sem compreender do que se tratava, o Homem seguiu adiante,
parando apenas uma vez para olhar para os seus sapatos
enquanto os engraxava.

Ao dobrar a terceira esquina, o Homem finalmente cedeu a que o futuro
fosse mais importante que o passado, e apressou o passo desmedidamente.

No topo desse mesmo edificio, um menino deitado contemplava as nuvens,
e ria divertido, com as figuras por elas desenhadas.
Como eram perfeitas algumas delas, como a do Homem que levava uma mala
e tinha uns grandes sapatos.

N.Gouveia

12 fevereiro 2006

Ao contrário 

Por Deus, ao contrário.
Subo à tona para respirar o ar aflito,
também eu necessitado dele,
a fazer o biscate e creditar algum tempo são.
Pelo encontro, ao contrário.
O outro em mim e eu no outro,
a decantar pós de estrelas para o fermento
da criança dos dois.
Juntos e depois, mais tarde, a fazer rir,
a arrepiar a realidade livre,
a contradizer, sempre com graça.
Por mim, ao contrário,
sem chagas nos pés cruzados,
nem nas mãos separadas.
Meu tecto coberto de divindades,
dançem comigo sobre a minha cama,
ao contrário do que fazia crer,
este dia de inverno,
sem lenha sequer nenhuma.

(N.G.)

11 fevereiro 2006

Veleiro 

Veleiro, sobre a canção dentro de mim.
Realidade e sonho, criando uma infãncia
sempre filha do mistério, e quando o que toco
não vejo ou o vejo e não toco, ás vezes é assim.
Veleiro no nevoeiro em mim,
e lá no centro um espaço onde brincar
a tudo o que é belo e importante,
a tudo o que é, a tudo o que é...
Pois meu semelhante, senhor como eu na rua,
olha-me e evita-me na excitação das ondas,
veleiro sobre o medo em si.
Podia dizer-lhe como tudo são circulos,
nós todos neste mar em nós.
Realidade e sonho, nossas figuras tristes,
veleiro sobre as tempestades que perduram
como nós perduramos, tão para lá de nós.
E eu que só do mistério sou profeta,
e que nunca vi na realidade coisas mais certas do que nos sonhos,
veleiro sobre a sensação de viver.
À vista.
Terra, miragem.

(N.G.)

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